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Evento Histórico

Fez, a capital espiritual: de Idris II a al-Qarawiyyin

Século VIII - X

Esqueleto Histórico

Fez foi fundada em 789 pelo idríssida Idris I, descendente do profeta Maomé, e consolidada por seu filho Idris II, que fez da cidade sua capital. Desde o início, Fez foi um caldeirão de povos: árabes e berberes, mas também milhares de refugiados da Córdoba omíada deslocados pelas lutas na Península Ibérica e da cidade de Cairuão (Ifriqiya), fugindo das perseguições. Essa mistura criou uma das cidades mais cosmopolitas do mundo islâmico medieval, dividida em dois núcleos — o Fes el-Bali (a Fez antiga) e o Fes el-Jdid (a 'Fezi Nova', fundada em 1276 pelos merínidas). O coração do prestígio de Fez é a Universidade de al-Qarawiyyin, fundada em 859 por Fatima al-Fihri, uma mulher da aristocracia de Cairuão. Considerada por muitos a mais antiga instituição de ensino superior em funcionamento contínuo do mundo, al-Qarawiyyin foi o modelo para as universidades europeias e atraiu estudiosos de todo o Mediterrâneo: entre eles Ibn Khaldun (o pai da sociologia e da historiografia), o filósofo Ibn Rushd (Averróis) e o matemático e astrônomo Ibn al-Banna. A biblioteca de al-Qarawiyyin guarda manuscritos de valor inestimável. Sob os merínidas (séculos XIII-XV), Fez viveu seu apogeu: a madrasa Bou Inania (1350) e a Madrasa al-Attarine ornamentada de azulejos e madeira de cedro são joias da arquitetura merínida; a cidade tornou-se o centro administrativo do Magrebe; o artesanato — couro, cerâmica, têxteis — floresceu. Quando o controle passou para os marinidas e depois para os saadianos e alauitas, Fez manteve seu papel de cidade eterna — capital espiritual, centro religioso e, aos olhos de muitos, o verdadeiro coração do Marrocos.

Histórias Humanas

Ibn Khaldun

O historiador e filósofo tunisino Ibn Khaldun (1332-1406) é considerado o 'pai da sociologia e da historiografia'. Na Universidade de al-Qarawiyyin, ele ensinou e desenvolveu as ideias que culminaram na 'Muqaddimah' (os Prolegômenos), uma obra seminal que analisa a ascensão e queda das civilizações — um precursor do método científico nas ciências sociais. Sua passagem por Fez é parte do mito fundador da cidade: a prova de que a capital espiritual do Marrocos era o destino dos maiores intelectos do mundo islâmico.

Fatima al-Fihri

Filha de Muhammad al-Fihri, um comerciante rico de Cairuão (atual Tunísia) que emigrou para Fez no século IX, Fatima al-Fihri herdou a fortuna da família e dedicou-a a um projeto audacioso: fundar uma mesquita e uma escola na sua nova cidade. Em 859, durante o Ramadã, Fatima começou a construção de al-Qarawiyyin, que se tornaria uma das maiores universidades do mundo medieval e a mais antiga em funcionamento contínuo. Sua história rompeu séculos de convenções: uma mulher que, no século IX, fundou uma das instituições de ensino mais influentes da história — e que ainda hoje é homenageada como padroeira da educação islâmica.

Gancho Contemporâneo

A Universidade de al-Qarawiyyin, reconhecida pelo Livro Guinness como a instituição de ensino mais antiga em funcionamento contínuo do mundo, ainda hoje forma estudantes e preserva uma biblioteca com milhares de manuscritos — você não pode entrar como turista, mas pode visitar a mesquita e o pátio para sentir a aura milenar.

Os curtumes de Chouara, as poças coloridas onde o couro é tingido há mais de mil anos com técnicas ancestrais, continuam a funcionar no coração da medina de Fez — uma tradição viva que une a olfato (o cheiro característico) à visão das cores vibrantes vistas dos terraços.

A medina de Fez el-Bali, com mais de 9.000 ruas labirínticas, é a maior zona urbana livre de carros do mundo e Patrimônio da Humanidade — um organismo vivo onde o comércio, a fé e a vida cotidiana seguem os mesmos ritmos dos séculos medievais.

Onde esse passado está vivo

Lugares que você pode visitar hoje e que carregam a marca deste período.

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