Mundo Legado
Voltar para eventos

Evento Histórico

Terramoto de 1755

1755

Esqueleto Histórico

Na manhã de 1º de novembro de 1755, Dia de Todos os Santos, um terramoto de magnitude estimada entre 8,5 e 9 sacudiu Lisboa durante vários minutos. A cidade — à época uma das mais ricas da Europa, capital de um império que se estendia da América do Sul à Ásia — desabou: igrejas, palácios e casas caíram, e o fogo das velas dos candelabros de velório espalhou-se. Horas depois, um tsunami de até 15 metros arrastou o que restava no Terreiro do Paço e no Cais. Estima-se que 30 a 60 mil pessoas tenham morrido, e a cidade ficou quase inteira destruída. O abalo virou uma tragédia 'global': as ondas atingiram a costa de Marrocos, da Galiza e das Antilhas, e o choque filosófico e científico ecoou pela Europa — Voltaire, Kant e Rousseau debateram as causas do mal e da natureza; Kant escreveu o primeiro tratado de sismologia. A pergunta que se impôs a Lisboa foi menos teológica e mais prática: como reconstruir uma capital que ardia, com a elite abalada e sobreviventes em tendas. A resposta veio do ministro do rei D. José I, o futuro Marquês de Pombal (Sebastião José de Carvalho e Melo): recusou o abandono da cidade e projetou a reconstrução no mesmo terreiro, com ruas retas, fachadas uniformes de até três pisos e um exército de engenheiros. Nasceram a Baixa Pombalina — primeira reconstrução urbana sistemática e científica da história moderna —, o sistema anti-sísmico 'gaiola pombalina' (uma estrutura de madeira flexível embutida nas paredes) e o saneamento do terror antirreligioso da corte — o jesuíta Gabriel Malagrida, que espalhava que o terramoto era o castigo de Deus, foi condenado e liquidado pelo tribunal de Pombal. Lisboa foi reconstruída em menos de uma década — o Terreiro do Paço rebatizado Praça do Comércio, com a estátua equestre do rei sorridente — e o modelo anti-sísmico seria exportado para todo o país e as colônias. O terramoto de 1755 deixou duas heranças imateriais: a ciência dos terramotos (a palavra 'tsunami' usada pelos portugueses no relato oficial) e a lição de que uma cidade pode nascer de novo, que é hoje a alma da capital atlântica.

Histórias Humanas

Marquês de Pombal

Sebastião José de Carvalho e Melo era um diplomata de 56 anos, embaixador em Viena e Londres, temperado pelo empirismo da corte inglesa e da física da época de Bacon. Em 1755 já era o principal ministro de D. José I. Conta-se que após o terramoto, ao ver o desespero do rei, perguntou-lhe: 'Se é preciso enterrar os mortos, trata-se de nós; se é preciso alimentar os vivos, trata-se de nós também.' Pombal dirigiu o salvamento (os 'enterrar' e os 'vivos'), a logística de tendas e a reconstrução, enfrentando os que queriam desistir de Lisboa. Caso raro na história: o seu plano urbanístico foi seguido à risca e a cidade que se vê hoje é, em grande parte, a cidade que ele desenhou em 1758.

D. José I

O rei sobreviveu por acaso: a corte estava em Belém, longe do epicentro. O terramoto, porém, o traumatizou a tal ponto que recusou de volta a viver em alvenaria e, durante anos, dormiu numa tenda no Alto da Ajuda. A sua fobia virou ornamentos: mandou construir o palácio de madeira e, quando Lisboa ardia, perguntavam-lhe se queria deixar a capital; Pombal dissuadiu-o de cada vez. Sua desconfiança fez de D. José I um governante mais dependente de Pombal — e o Reino ficou, por décadas, nas mãos do ministro iluminado.

Anônimo

As cartas e crônicas dos sobreviventes de 1755 descrevem a manhã em que a cidade tremeu como uma 'queda do fim do mundo': pessoas em missa na Sé (que desabou com milhares dentro), famílias que fugiram para os campos e o Cais, marinheiros que assistiriam da baía à água retirar-se antes da onda. Testemunhos anônimos relatam o medo dos 'terramotos de cólera' que destruíram com êxito salvar alguém e o luto dos que perderam filhos no Terreiro do Paço. A memória coletiva guarda a imagem do 'dia que a terra bailou', transmitida de geração em geração até os nossos dias.

Gancho Contemporâneo

A Baixa Pombalina — com a Praça do Comércio, a Rua Augusta e o Arco Triunfal — é o maior museu a céu aberto da reconstrução moderna, e cada um dos seus prédios ainda esconde a 'gaiola pombalina' que resiste aos abalos. É a rua principal onde os portugueses vivem o dia a dia, e o passeio obrigatório de Lisboa.

O terramoto fundou a sismologia moderna: o debate de Kant, as primeiras tabelas científicas e o sistema de construção flexível são estudados até hoje em cursos de engenharia — e o Tsunami Atlantic manteve o legado: Lisboa mantém exercícios de evacuação anuais nas margens do Tejo.

A Praça do Comércio é hoje o cenário do maior circuito de lazer da cidade — cafés, esplanadas, o elevador de Santa Justa ao fundo e o pôr do sol mais fotografado da Baixa — um convite diário a caminhar sobre a história.

Onde esse passado está vivo

Lugares que você pode visitar hoje e que carregam a marca deste período.

Outros eventos de Portugal

Era dos Descobrimentos

Lisboa · Portugal

Século XV - XVI

Entre os séculos XV e XVI, um pequeno reino à beira do Atlântico transformou a geografia do mundo conhecido. A partir de Sagres e Lagos, sob o patrocínio do…

Por que importa hoje

O português é falado hoje por mais de 260 milhões de pessoas em nove países — resultado direto dos Descobrimentos —, e Lisboa celebra a era com os monumentos mais visitados do país: a Torre de Belém e o Mosteiro dos Jerónimos, Patrimônio Mundial UNESCO.

cultura

Conheça: Vasco da Gama

Invasões Napoleónicas e a vinda da Corte para o Brasil

Lisboa · Portugal

1807 - 1820

Em novembro de 1807, Portugal pagou o preço de não cumprir o bloqueio continental imposto por Napoleão à Inglaterra. As tropas francesas sob o comando do…

Por que importa hoje

A maior consequência das invasões foi a criação do Brasil independente (1822), que hoje partilha com Portugal a língua, a história e os laços culturais mais profundos do mundo lusófono — a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa é a prova viva dessa árvore.

cultura

Conheça: Dom João VI

Revolução dos Cravos

Lisboa · Portugal

25 de abril de 1974

Na madrugada de 25 de abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas (MFA), formado por capitães que rejeitavam a guerra colonial em África, executou um golpe…

Por que importa hoje

Portugal é hoje uma das democracias mais estáveis da Europa, membro da União Europeia desde 1986 — e a cada 25 de abril comemora o 'Dia da Liberdade' com a força de quem lembra que a censura acabou há meio século.

política

Conheça: Celeste Caeiro

Experiências

Experiências de quem visitou

Compartilhe sua experiência e ajude outros viajantes.

Quer compartilhar sua experiência? Entre na sua conta ou cadastre-se.
Carregando experiências...