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Evento Histórico

Ramsés II e os templos de Abu Simbel

c. 1279 a 1213 a.C.

Esqueleto Histórico

Nenhum faraó deixou mais monumentos que Ramsés II, 'o Grande' (c. 1279-1213 a.C.) — sessenta e seis anos de reinado, mais de 200 filhos e esposas, e um programa de construção que marcou o Egito de Gizé à Núbia. Na fronteira sul do império, perto da moderna Assuã, ele mandou esculpir na rocha o grande Templo de Abu Simbel: quatro colossos de 20 metros de si mesmo na fachada, e um santuário interno onde o sol invade duas vezes por ano o corredor até o altar. Ao lado, o templo dedicado à rainha Nefertari, com estátuas da própria realeza em escala igual às de Ramsés — raríssimo na arte egípcia. Ramsés II travou a célebre Batalha de Kadesh contra os hititas (c. 1274 a.C.), a mais bem documentada da antiguidade, que terminou no primeiro tratado de paz conhecido — numa língua e com cláusulas que hoje se estudam nos arquivos de Hattusa. Em casa, o faraó construiu: o Ramesseum em Tebas, os colossos de Karnaque e Luxor, o templo de Abidos e a ampliação de vários santuários. Era um propagandista magistral: cada relevo o mostra esmagando inimigos ou reverenciando os deuses, imagem de poder que os turistas leem até hoje. A história moderna dos templos é, ela própria, um marco no campo do patrimônio mundial. Na década de 1960, a construção da Barragem Alta de Assuã ameaçou submergir Abu Simbel e os templos da Núbia sob as águas do recém-criado Lago Nasser. A UNESCO lançou então a primeira grande campanha internacional de preservação: num esforço épico entre 1964 e 1968, engenheiros de mais de 50 países cortaram o templo em blocos, moveram-no 65 metros para cima e o reconstruíram sobre uma colina artificial, mantendo a orientação original ao sol nascente — com uma precisão que preservou a iluminação das duas datas sagradas. Abu Simbel, hoje Patrimônio Mundial, é do ponto de vista egípcio o 'templo dos templos' — e o resgate dos anos 1960 é considerado o nascimento da noção moderna de patrimônio mundial (que formalizaria a Convenção da UNESCO em 1972). Visitar Assuã e Abu Simbel é cruzar dois milênios: os faraós na rocha e o milagre da engenharia que os salvou das águas — os grandes colossos de Ramsés seguem olhando o Lago Nasser, e o sol continua, duas vezes por ano, a tocar o coração do templo.

Histórias Humanas

Ramsés II, o Grande

Muitos faraós, um mito: Ramsés II reinou por 66 anos — tempo quase inédito — e construiu para si mais que qualquer outro egípcio. Sobrevivem suas estátuas colossais em Mênfis, Luxor e Abu Simbel; seu templo mortuário, o Ramesseum; a estela de Kadesh, onde narra sua 'vitória' (os hititas diziam o mesmo). Casado com Nefertari e com Isetnofret, pai de mais de 100 filhos, Ramsés viveu até os 90 anos — idade excepcional para a época. Os gregos o chamaram de Sesóstris; os antigos egípcios, de 'Rei dos Reis'. Os testes de DNA modernos, de múmias identificadas, confirmaram a lenda: ele era mesmo alto, de nariz aquilino e cabelos avermelhados. Quando Ramsés morreu, foi enterrado no Vale dos Reis — e sua múmia, hoje no Museu Nacional da Civilização Egípcia do Cairo, é uma das mais visitadas do mundo.

Nefertari, a 'excelente das excelentes'

Nefertari — 'a mais bela' — foi a grande esposa real de Ramsés II, e o pequeno templo ao lado do de Abu Simbel foi dedicado a ela com a inscrição que o faraó gravou: 'a ela, por quem o sol brilha'. É a única rainha do Antigo Egito com um templo próprio de escala real na fachada de Abu Simbel, em pé de igualdade com o marido. Sua tumba no Vale das Rainhas, com afrescos das mais belas do país, está entre os tesouros mais delicados de Tebas (acesso restrito por conservação). As cartas de amor e de Estado que trocou com Ramsés, e a presença da deusa Hathor em seu templo, contam a história de uma mulher cujo prestígio atravessou 3.200 anos — do nome na rocha da Núbia ao mais recente museu do Cairo.

Maurice Viollette e os engenheiros do resgate

Quando a Barragem Alta de Assuã foi construída nos anos 1960, os templos de Abu Simbel e da Núbia estavam condenados às águas do Lago Nasser. Foi Maurice Viollette, arquiteto francês, quem liderou a solução mais ousada da arqueologia moderna: cortar o Templo de Abu Simbel em mais de 1.000 blocos, transportá-los 65 metros ladeira acima e reconstruí-los com orientação milimétrica para preservar a iluminação do solstício. A equipe internacional, financiada pela UNESCO e por 50 países, trabalhou quatro anos sob o sol do deserto, com engenheiros suecos, italianos e egípcios. O resgate — considerado o maior feito de engenharia de patrimônio do século XX — salvou não apenas Abu Simbel, mas também Philae, Kalabsha e dezenas de monumentos núbios, definindo o modelo de cooperação de patrimônio do mundo.

Gancho Contemporâneo

Duas vezes por ano, nos dias 22 de fevereiro e 22 de outubro, milhares de visitantes testemunham o fenômeno do sol de Abu Simbel — inscrições abrem a iluminação do santuário, num espetáculo que a engenharia do resgate preservou com exatidão.

A campanha da UNESCO que salvou Abu Simbel das águas do Lago Nasser é o marco fundador do conceito moderno de patrimônio mundial — e segue sendo o exemplo máximo de cooperação internacional para salvar monumentos.

O poema 'Ozymandias' de Shelley — sobre os colossos caídos de um 'Rei dos Reis' no deserto — fez de Ramsés II um símbolo universal do poder e da transitoriedade, imortalizado na rival internacional desde 1818 até os dias de hoje.

Onde esse passado está vivo

Lugares que você pode visitar hoje e que carregam a marca deste período.

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