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Evento Histórico

A Guerra Civil Espanhola e o legado de Guernica

1936–1939

Esqueleto Histórico

A Guerra Civil Espanhola (1936-1939) foi o ensaio sangrento que antecedeu a Segunda Guerra Mundial: em 17 de julho de 1936, um golpe militar liderado pelo general Francisco Franco contra o governo democrático da Segunda República — eleita em 1931, com reformas agrárias, trabalhistas e culturais — fracassou como 'pronunciamiento' rápido, mas as duas Espanhas mergulharam em uma guerra civil de quase três anos que dividiu o país, as famílias e a Europa. O bando nacionalista de Franco recebeu apoio militar da Alemanha nazista e da Itália fascista; a República contou com a ajuda da União Soviética, das brigadas internacionais (voluntários de dezenas de países) e da lealdade das milícias populares. O conflito foi brutal e atravessou a geografia: batalhas como a do Jarama e do Ebro, os cercos de Madrid (1936-39), o front do norte (Bilbao, o País Basco) e o colapso final da República em março de 1939, quando Franco entrou vitorioso em Madrid — depois de um êxodo em massa de meio milhão de refugiados para França e de uma repressão que custou dezenas de milhares de execuções sumárias nas duas zonas. O bombardeio de Guernica (26 de abril de 1937), a vila basca atacada pela Legião Condor alemã a pedido dos nacionalistas, foi o primeiro bombardeio aéreo deliberado de uma cidade na história da guerra moderna — e tornou-se o símbolo universal dos horrores do conflito ao ser imortalizado no mural de Picasso. Pablo Picasso pintou 'Guernica' (1937), a tela de 3,5 × 7,8 metros com o touro, o cavalo, a mãe com o filho morto e a mulher em chamas, em poucas semanas, para o pavilhão espanhol da Exposição Internacional de Paris — uma denúncia anticartaz tendo a guerra como genocídio que se tornou o quadro político mais famoso do século XX. A obra permaneceu exilada em Nova York durante o franquismo, a pedido do próprio artista ('o quadro só voltará à Espanha quando houver democracia'), e chegou a Madri apenas em 1981, um ano após a Constituição. A Guerra Civil deixou memórias que ainda dividem: a ditadura de Franco (1939-1975) impôs o nacional-catolicismo, a repressão e a 'valle de los caídos' (o mausoléu construído com trabalho forçado), enquanto a transição à democracia optou por um 'pacto de esquecimento' que por décadas silenciou os vencidos. A Lei da Memória Histórica (2007) e a atualidade reabriram as valas comuns e o debate sobre o estado — em uma Espanha democrática que, no entanto, herdou do conflito um trauma que persiste na política e na cultura, do cinema de Almodóvar aos romances de Javier Cercas.

Histórias Humanas

Pablo Picasso

Reconhecido como o artista mais influente do século XX, Pablo Picasso (1881-1973) respondeu ao bombardeio de Guernica com o mural que deu forma ao horror do conflito: pintou 'Guernica' em 1937, em semanas de trabalho sobre a tela que encomendou para o Pavilhão da Espanha Republicana na Exposição de Paris, como denúncia da guerra. Exilado em Paris, recusou o apoio franquista, manteve a obra fora da Espanha até a democracia e recebeu a notícia da liberação do quadro poucos anos antes de morrer. Seu gesto — a arte que fala pelos sem voz — permanece como o exemplo máximo da arte engajada da história moderna.

Dolores Ibárruri, a Pasionaria

Líder do Partido Comunista da Espanha na Guerra Civil, Dolores Ibárruri, 'a Pasionaria' (1895-1989), tornou-se a mãe simbólica da República: oradora lendária, autora do grito '¡No pasarán!' (não passarão) durante o cerco de Madrid, organizou a defesa e as milícias e encarnou na memória popular a resistência republicana. Obrigada ao exílio em Moscou em 1939 com milhares de crianças espanholas, retornou à Espanha democrática em 1977, elegendo deputada aos 81 anos — a voz que atravessou a ditadura e a guerra para testemunhar a democracia.

Anônimo

Entre 35 e 40 mil homens e mulheres de mais de 50 países — trabalhadores americanos, estudantes britânicos, jornalistas, poetas como George Orwell — atravessaram ilegalmente a fronteira para lutar ao lado da República contra o fascismo: as Brigadas Internacionais, organizadas em batalhões de Hemingway e a 'Brigada Lincoln', lutaram no Jarama, no Ebro e na defesa de Madrid. Dezenas de milhares morreram no exílio ou nos campos; mas sua moral — a do 'se não vem a causa, não se deve ir' — ficou viva na memória da esquerda mundial, e em 1996 receberam pelas Cortes o aplauso da Espanha democrática como 'cidadãos da paz'.

Gancho Contemporâneo

O mural 'Guernica' é exibido no Museu Nacional Centro de Arte Rainha Sofia em Madrid — a obra mais visitada do museu e um ícone universal da denúncia dos horrores da guerra.

A 'Memória Histórica' é um dos debates mais ativos da Espanha contemporânea: a exumação de vítimas das valas comuns, a Lei da Memória (2007), as exumações de Franco do Vale dos Caídos e as políticas de reconciliação mobilizam anualmente a política e a sociedade.

Guernica (Gernika), a vila atingida pelo bombardeio, é hoje um símbolo mundial de paz e reconciliação — a Árvore de Guernica, sob a qual se juravam os fueros bascos, permanece erguida na Casa de Juntas, visitada por milhares de peregrinos pela paz.

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